{"id":146,"date":"2009-03-15T05:22:57","date_gmt":"2009-03-15T08:22:57","guid":{"rendered":"http:\/\/hackers.propus.com.br\/~marlon\/blog\/?p=146"},"modified":"2009-04-19T18:32:15","modified_gmt":"2009-04-19T21:32:15","slug":"asas-de-um-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mfdutra.com\/blog\/2009\/03\/15\/asas-de-um-sonho\/","title":{"rendered":"Asas de um sonho"},"content":{"rendered":"<p>Todo menino cresce com uma s\u00e9rie de sonhos, sonhos esses que v\u00e3o variando de acordo com a idade. Tenho vaga lembran\u00e7a de querer ter sido caminhoneiro e bombeiro quando era pequeno. J\u00e1 mais grandinho, tipo uns 6-7, veio o fasc\u00ednio por carros. Eu devia ler mais 4 Rodas do que gibis para crian\u00e7as da minha idade. Tinha um interesse tamb\u00e9m por caminh\u00f5es e \u00f4nibus, especialmente os mais modernos, cheio dos reloginhos e bot\u00f5es. Mas nada nunca me chamou tanto aten\u00e7\u00e3o quanto os avi\u00f5es.<\/p>\n<p>Me criei no interior do Rio Grande do Sul, em Rio Grande, e como toda a cidade do interior, a presen\u00e7a de aeronaves era algo muito pacato. Uma ou duas vezes por dia se via um passando, o que era um acontecimento, claro. Eu lembro muito bem de que quando ouv\u00edamos o barulho de um avi\u00e3o, sa\u00edamos para o p\u00e1tio para abanar. Tento imaginar a cena, n\u00f3s crian\u00e7as olhando para o c\u00e9u com caras de encanto, provavelmente sonhando em estar l\u00e1 em cima fazendo o inverso.<\/p>\n<p>Depois dos 13 anos veio a fase da bicicleta, onde creio que todos n\u00f3s meninos dessa idade gast\u00e1vamos toda a mesada para incrementar a magrela com c\u00e2mbios shimano, aros de alum\u00ednio, etc e tal. Por raz\u00f5es \u00f3bvias de seguran\u00e7a, minha m\u00e3e n\u00e3o me deixava ir longe, muito menos pegar uma estrada de bicicleta. E meu hist\u00f3rico de acidentes n\u00e3o era baixo. \ud83d\ude42 Me recordo de ter infringido essa \u201cregra&#8221; umas duas ou tr\u00eas vezes com meus amigos, quando fomos pedalando at\u00e9 o aeroporto da cidade para ver os avi\u00f5es. Uma vez nos deixaram entrar no hangar para ver mais de perto. Nunca esqueci essa cena. Sempre tive um encanto por tecnologia, bot\u00f5es, reloginhos, qualquer porcaria eletr\u00f4nica. Um painel de avi\u00e3o \u00e9 a jun\u00e7\u00e3o perfeita de tudo isso. Al\u00e9m disso, eu tinha um grande fasc\u00ednio por altura, ver as coisas de cima, fotos a\u00e9reas, etc. Sa\u00ed daquele hangar com um sonho plantado na minha cabe\u00e7a de menino: um dia eu vou pilotar um neg\u00f3cio desses!<\/p>\n<p>Me recordo uma vez tamb\u00e9m que o Leonel Brizola visitou Rio Grande e foi feita uma passeata onde eu estava junto com meu pai no carro. Como meu pai fazia parte da comitiva que o recebera, fomos mais tarde acompanh\u00e1-lo at\u00e9 o aeroporto local. Creio que foi a primeira vez que eu vi um avi\u00e3o a jato de perto. Acho que era um LearJet. A cena daquele avi\u00e3o rasgando o asfalto na nossa frente ainda persiste na minha mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Isso tudo para mim era uma utopia, assim como outros v\u00e1rios sonhos que v\u00e3o se formando na nossa cabe\u00e7a ao longo do nosso crescimento. Sempre fui louco por estrada, viajar, conhecer outros lugares. Sempre gostei demais de geografia. Desde crian\u00e7a era doente por mapas e atlas. Poderia ficar horas e horas sonhando com os lugares que eu poderia conhecer daqueles mapas. Um avi\u00e3o poderia me levar daqui pra ali, dali pra l\u00e1, de l\u00e1 pra c\u00e1&#8230; Genial! Uma caracter\u00edstica que eu trouxe da minha inf\u00e2ncia certamente \u00e9 a de um sonhador, mesmo embora eu achasse que muito disso fosse utopia, mas o simples fato de sonhar j\u00e1 era algo bacana pelo menos.<\/p>\n<p>Ao completar 15 anos, minha fam\u00edlia, com um esfor\u00e7o enorme, me deu um microcomputador, esfor\u00e7o esse que selou o meu destino at\u00e9 os dias de hoje. A minha paix\u00e3o por tecnologia se acentuou de tal forma que isso naturalmente acabou por virar a minha profiss\u00e3o. Aquela utopia de pilotar um avi\u00e3o foi ficando pra tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Aos 20 anos, encarei o desafio de deixar a casa da fam\u00edlia e seguir o rumo na cidade grande. N\u00e3o poderia ter tomado melhor decis\u00e3o na vida. Um dos pontos mais positivos dessa mudan\u00e7a foi a de come\u00e7ar a perceber que alguns daqueles sonhos de guri poderiam at\u00e9 se tornar realidade, que n\u00e3o era algo t\u00e3o distante quanto eu imaginava. Como eu n\u00e3o tinha muitos amigos em Porto Alegre nos primeiros tempos, passava algumas tardes no aeroporto Salgado Filho (na \u00e9poca no terminal antigo) olhando o movimento dos avi\u00f5es subindo e descendo atrav\u00e9s do vidro do terra\u00e7o. Como eu queria estar dentro deles, nem que fosse como passageiro mesmo.<\/p>\n<p>No ano seguinte surgiu uma viagem a trabalho, e outra, e outra, e outra, e mais outra, que rapidamente me tornei um passageiro frequente. Em poucos anos, j\u00e1 havia acumulado centenas de milhares de milhas em programas de milhagem, havendo passado por aeroportos em todos os cantos do Brasil e nas tr\u00eas Am\u00e9ricas (ver post &#8220;<a href=\"http:\/\/hackers.propus.com.br\/~marlon\/blog\/2008\/02\/20\/aeroportos-por-onde-estive\/\" target=\"_blank\">Aeroportos por onde estive<\/a>&#8220;). Quando que eu iria imaginar isso? O fato \u00e9 que isso s\u00f3 aumentou minha vontade de um dia pode estar no comando daquele \u201cp\u00e1ssaro&#8221;.<\/p>\n<p>Como um bom sonhador, h\u00e1 alguns anos me despertou a curiosidade de ver que t\u00e3o dif\u00edcil seria se tornar um piloto. Putz, era muito caro para as minhas condi\u00e7\u00f5es na \u00e9poca, mas n\u00e3o t\u00e3o caro ao ponto de eu me conformar que nunca poderia fazer isso.<\/p>\n<p>Mais alguns anos se passaram at\u00e9 que encontrei um colega de trabalho, Alberto, que compartilhava da mesma paix\u00e3o, mas que o destino tamb\u00e9m o levara para a computa\u00e7\u00e3o. Alberto j\u00e1 se virava bem nos simuladores, e eu acabei pegando gosto pela coisa tamb\u00e9m. Isso, de certa forma, acabou despertando meu interesse sobre o assunto e comecei a acompanhar v\u00e1rios sites e f\u00f3runs de avia\u00e7\u00e3o na Internet.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do ano passado, resolvemos verificar mais detalhadamente o que seria necess\u00e1rio para voarmos de verdade. O simulador j\u00e1 estava ficando sem gra\u00e7a. \ud83d\ude42 Com todas as informa\u00e7\u00f5es em m\u00e3os, vimos que a jornada era grande e a facada um pouco salgada, mas nada de outro mundo. Naquele momento eu j\u00e1 n\u00e3o podia mais voltar atr\u00e1s. Estava a um passo de iniciar a materializa\u00e7\u00e3o de um sonho que me acompanhava desde a pequena inf\u00e2ncia. Tomamos coragem, decidimos por fazer, e come\u00e7amos a jornada.<\/p>\n<p>Na avia\u00e7\u00e3o, tudo come\u00e7a por um severo exame psicot\u00e9cnico e um check up completo de sa\u00fade (f\u00edsica e mental). O psicot\u00e9cnico foi bem pesado, muito pior que para tirar carteira de motorista. Em seguida h\u00e1 que fazer o check up completo de sa\u00fade em um hospital da aeron\u00e1utica. L\u00e1 fomos n\u00f3s, um dia inteiro quase na Base A\u00e9rea de Canoas, com exames de sangue, urina, cl\u00ednica, psiqui\u00e1trico, audiometria, eletro-cardiograma, eletro-encefalograma, raio-x, entre outros. Pelo menos n\u00e3o teve o tal do toque retal. Tudo certo com a sa\u00fade, sa\u00ed com o meu CCF (certificado de capacidade f\u00edsica) classe 2, para pilotos privados. A cada 2 anos, h\u00e1 de renov\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Antes de pensar em pilotar uma aeronave, \u00e9 necess\u00e1rio um vasto conhecimento te\u00f3rico. Decidimos fazer toda a forma\u00e7\u00e3o no <a href=\"http:\/\/www.args.com.br\/\" target=\"_blank\">Aeroclube do Rio Grande do Sul<\/a>, que possui uma das escolas aeron\u00e1uticas mais conceituadas do Brasil, tendo formado muitos dos pilotos da Varig nos velhos tempos e continua formando muita gente at\u00e9 hoje. Foram 6 meses de aulas todos os dias \u00e0 noite, com as cadeiras de meteorologia aeron\u00e1utica, conhecimentos t\u00e9cnicos e motores, teoria de voo, navega\u00e7\u00e3o a\u00e9rea e regulamentos de tr\u00e1fego a\u00e9reo. O curso foi sensacional. A troca de experi\u00eancia com o pessoal mais velho n\u00e3o tem pre\u00e7o. Nosso professor de regulamentos, por exemplo, est\u00e1 na avia\u00e7\u00e3o desde 25 anos antes de eu nascer, hoje um grande instrutor de todos os pilotos da Tam. N\u00e3o tem dinheiro que pague assistir uma aula com algu\u00e9m com essa bagagem toda. Como ele mesmo dizia, o bate-papo na aula, o que ele chamava muito corretamente de \u201ccultura aeron\u00e1utica&#8221;, valia mais que a aula em si.<\/p>\n<p>No meio do curso te\u00f3rico comecei com os voos de fato, obviamente sempre com o instrutor. Antes do primeiro voo, se cria uma expectativa bastante grande, afinal h\u00e1 quantos anos eu sonhava com aquele momento. Mas na verdade, na hora \u00e9 tanta tanta coisa pra se preocupar, que voc\u00ea acaba n\u00e3o pensando em mais nada. \u00c9 como quando voc\u00ea aprende a dirigir, que voc\u00ea fica t\u00e3o preocupado com o carro que esquece do tr\u00e2nsito. Nos meus primeiros voos, eu n\u00e3o arriscava olhar pro lado, porque o avi\u00e3o em si tomava conta de 100% da minha capacidade cerebral. Como a gente fala na computa\u00e7\u00e3o, \u201co CPU est\u00e1 colado em 100%&#8221;.<\/p>\n<p>A lei brasileira permite que voc\u00ea comece a voar com instrutor antes de prestar a prova te\u00f3rica (que se chama de banca) na ANAC, desde que tenha o CCF. Por\u00e9m, sem a banca, voc\u00ea n\u00e3o pode prosseguir com o curso e voar solo. Como eu fiquei quase um m\u00eas no exterior, perdi umas tr\u00eas semanas de aula no aeroclube. Baixei a cabe\u00e7a e estudei muito para prestar a banca. Poucos dias antes do natal, fizemos a prova e passamos de primeira. Das 5 provas, a minha m\u00e9dia mais baixa foi 80% e gabaritei navega\u00e7\u00e3o. Eu tinha me preparado para uma prova muito mais dif\u00edcil. \ud83d\ude42 Nesse instante, adquiri minha licen\u00e7a vital\u00edcia de piloto privado, faltando apenas as habilita\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, essas tempor\u00e1rias e pra cada tipo de avi\u00e3o (mono-motor, multi-motor, jatos&#8230;) e\/ou tipo de opera\u00e7\u00e3o (visual ou instrumentos).<\/p>\n<p>J\u00e1 devo andar agora pela minha d\u00e9cima hora de voo, j\u00e1 bem mais tranquilo que nas primeiras horas. J\u00e1 n\u00e3o brigo tanto com o avi\u00e3o, ou ele n\u00e3o briga tanto comigo. J\u00e1 consigo me orientar bem, voltar pro aeroclube, respirar mais, observar a paisagem, etc. J\u00e1 decolo sozinho e quase pouso, com um aux\u00edlio do instrutor no toque final. Enfim, estou procedendo com o treinamento dentro dos par\u00e2metros esperados para um aluno aplicado. Uma coisa que meu instrutor gosta muito de mim \u00e9 que eu me cobro muito e sou extremamente perfeccionista. Numa atividade onde n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para erros, isso pode fazer toda a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Talvez dentro de mais dez ou quinze horas, eu esteja apto a fazer o meu primeiro voo solo. O primeiro voo solo \u00e9 o voo mais importante da vida de qualquer piloto no mundo. \u00c9 o primeiro voo que o instrutor n\u00e3o est\u00e1 ali pra desfazer a sua cagada, para lhe dizer o que fazer. Nem que ele n\u00e3o fa\u00e7a nada, mas a simples presen\u00e7a do instrutor j\u00e1 d\u00e1 uma grande tranquilidade. Confesso que j\u00e1 estou bastante apreensivo, muito pela minha forte auto cobran\u00e7a, mas o que seja, creio que isso deixaria qualquer um bem ansioso.<\/p>\n<p>Relembrando um pouco a minha inf\u00e2ncia e juventude e escrevendo este texto, eu vejo que como \u00e9 poss\u00edvel a gente realizar muitos dos nossos sonhos, inclusive aqueles l\u00e1 de crian\u00e7a. Uma das coisas mais importantes na nossa vida \u00e9 a perseveran\u00e7a. De alguns anos para c\u00e1, eu amadureci uma f\u00e9 inabal\u00e1vel de que o imposs\u00edvel muitas vezes \u00e9 algo que plantam na sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Vale a pena correr atr\u00e1s de um sonho. Pode ser que seja um sonho remoto, pode ser at\u00e9 uma utopia, na verdade. Ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u201c<a href=\"http:\/\/www.blogdomuseu.com.br\/\" target=\"_blank\">Asas de um sonho<\/a>&#8221; \u00e9 o nome dado a um museu de avia\u00e7\u00e3o criado pela Tam em S\u00e3o Carlos &#8211; SP, empresa essa fruto de um grande sonhador, o <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Rolim_Adolfo_Amaro\" target=\"_blank\">Comandante Rolim Amaro<\/a>.<\/em><\/p>\n<p><em>Veja tamb\u00e9m o <a href=\"http:\/\/www.bengoa.com.br\/blog\/2009\/03\/asas-de-um-outro-sonho\/\" target=\"_blank\">post do Alberto<\/a> sobre o mesmo assunto.<br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo menino cresce com uma s\u00e9rie de sonhos, sonhos esses que v\u00e3o variando de acordo com a idade. Tenho vaga lembran\u00e7a de querer ter sido caminhoneiro e bombeiro quando era pequeno. J\u00e1 mais grandinho, tipo uns 6-7, veio o fasc\u00ednio por carros. Eu devia ler mais 4 Rodas do que gibis para crian\u00e7as da minha &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/mfdutra.com\/blog\/2009\/03\/15\/asas-de-um-sonho\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Asas de um sonho&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-146","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-aviacao","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mfdutra.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mfdutra.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mfdutra.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mfdutra.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mfdutra.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=146"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/mfdutra.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":163,"href":"https:\/\/mfdutra.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146\/revisions\/163"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mfdutra.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=146"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mfdutra.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=146"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mfdutra.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=146"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}