Asas de um sonho

Todo menino cresce com uma série de sonhos, sonhos esses que vão variando de acordo com a idade. Tenho vaga lembrança de querer ter sido caminhoneiro e bombeiro quando era pequeno. Já mais grandinho, tipo uns 6-7, veio o fascínio por carros. Eu devia ler mais 4 Rodas do que gibis para crianças da minha idade. Tinha um interesse também por caminhões e ônibus, especialmente os mais modernos, cheio dos reloginhos e botões. Mas nada nunca me chamou tanto atenção quanto os aviões.

Me criei no interior do Rio Grande do Sul, em Rio Grande, e como toda a cidade do interior, a presença de aeronaves era algo muito pacato. Uma ou duas vezes por dia se via um passando, o que era um acontecimento, claro. Eu lembro muito bem de que quando ouvíamos o barulho de um avião, saíamos para o pátio para abanar. Tento imaginar a cena, nós crianças olhando para o céu com caras de encanto, provavelmente sonhando em estar lá em cima fazendo o inverso.

Depois dos 13 anos veio a fase da bicicleta, onde creio que todos nós meninos dessa idade gastávamos toda a mesada para incrementar a magrela com câmbios shimano, aros de alumínio, etc e tal. Por razões óbvias de segurança, minha mãe não me deixava ir longe, muito menos pegar uma estrada de bicicleta. E meu histórico de acidentes não era baixo. 🙂 Me recordo de ter infringido essa “regra” umas duas ou três vezes com meus amigos, quando fomos pedalando até o aeroporto da cidade para ver os aviões. Uma vez nos deixaram entrar no hangar para ver mais de perto. Nunca esqueci essa cena. Sempre tive um encanto por tecnologia, botões, reloginhos, qualquer porcaria eletrônica. Um painel de avião é a junção perfeita de tudo isso. Além disso, eu tinha um grande fascínio por altura, ver as coisas de cima, fotos aéreas, etc. Saí daquele hangar com um sonho plantado na minha cabeça de menino: um dia eu vou pilotar um negócio desses!

Me recordo uma vez também que o Leonel Brizola visitou Rio Grande e foi feita uma passeata onde eu estava junto com meu pai no carro. Como meu pai fazia parte da comitiva que o recebera, fomos mais tarde acompanhá-lo até o aeroporto local. Creio que foi a primeira vez que eu vi um avião a jato de perto. Acho que era um LearJet. A cena daquele avião rasgando o asfalto na nossa frente ainda persiste na minha memória.

Isso tudo para mim era uma utopia, assim como outros vários sonhos que vão se formando na nossa cabeça ao longo do nosso crescimento. Sempre fui louco por estrada, viajar, conhecer outros lugares. Sempre gostei demais de geografia. Desde criança era doente por mapas e atlas. Poderia ficar horas e horas sonhando com os lugares que eu poderia conhecer daqueles mapas. Um avião poderia me levar daqui pra ali, dali pra lá, de lá pra cá… Genial! Uma característica que eu trouxe da minha infância certamente é a de um sonhador, mesmo embora eu achasse que muito disso fosse utopia, mas o simples fato de sonhar já era algo bacana pelo menos.

Ao completar 15 anos, minha família, com um esforço enorme, me deu um microcomputador, esforço esse que selou o meu destino até os dias de hoje. A minha paixão por tecnologia se acentuou de tal forma que isso naturalmente acabou por virar a minha profissão. Aquela utopia de pilotar um avião foi ficando pra trás.

Aos 20 anos, encarei o desafio de deixar a casa da família e seguir o rumo na cidade grande. Não poderia ter tomado melhor decisão na vida. Um dos pontos mais positivos dessa mudança foi a de começar a perceber que alguns daqueles sonhos de guri poderiam até se tornar realidade, que não era algo tão distante quanto eu imaginava. Como eu não tinha muitos amigos em Porto Alegre nos primeiros tempos, passava algumas tardes no aeroporto Salgado Filho (na época no terminal antigo) olhando o movimento dos aviões subindo e descendo através do vidro do terraço. Como eu queria estar dentro deles, nem que fosse como passageiro mesmo.

No ano seguinte surgiu uma viagem a trabalho, e outra, e outra, e outra, e mais outra, que rapidamente me tornei um passageiro frequente. Em poucos anos, já havia acumulado centenas de milhares de milhas em programas de milhagem, havendo passado por aeroportos em todos os cantos do Brasil e nas três Américas (ver post “Aeroportos por onde estive“). Quando que eu iria imaginar isso? O fato é que isso só aumentou minha vontade de um dia pode estar no comando daquele “pássaro”.

Como um bom sonhador, há alguns anos me despertou a curiosidade de ver que tão difícil seria se tornar um piloto. Putz, era muito caro para as minhas condições na época, mas não tão caro ao ponto de eu me conformar que nunca poderia fazer isso.

Mais alguns anos se passaram até que encontrei um colega de trabalho, Alberto, que compartilhava da mesma paixão, mas que o destino também o levara para a computação. Alberto já se virava bem nos simuladores, e eu acabei pegando gosto pela coisa também. Isso, de certa forma, acabou despertando meu interesse sobre o assunto e comecei a acompanhar vários sites e fóruns de aviação na Internet.

No início do ano passado, resolvemos verificar mais detalhadamente o que seria necessário para voarmos de verdade. O simulador já estava ficando sem graça. 🙂 Com todas as informações em mãos, vimos que a jornada era grande e a facada um pouco salgada, mas nada de outro mundo. Naquele momento eu já não podia mais voltar atrás. Estava a um passo de iniciar a materialização de um sonho que me acompanhava desde a pequena infância. Tomamos coragem, decidimos por fazer, e começamos a jornada.

Na aviação, tudo começa por um severo exame psicotécnico e um check up completo de saúde (física e mental). O psicotécnico foi bem pesado, muito pior que para tirar carteira de motorista. Em seguida há que fazer o check up completo de saúde em um hospital da aeronáutica. Lá fomos nós, um dia inteiro quase na Base Aérea de Canoas, com exames de sangue, urina, clínica, psiquiátrico, audiometria, eletro-cardiograma, eletro-encefalograma, raio-x, entre outros. Pelo menos não teve o tal do toque retal. Tudo certo com a saúde, saí com o meu CCF (certificado de capacidade física) classe 2, para pilotos privados. A cada 2 anos, há de renová-lo.

Antes de pensar em pilotar uma aeronave, é necessário um vasto conhecimento teórico. Decidimos fazer toda a formação no Aeroclube do Rio Grande do Sul, que possui uma das escolas aeronáuticas mais conceituadas do Brasil, tendo formado muitos dos pilotos da Varig nos velhos tempos e continua formando muita gente até hoje. Foram 6 meses de aulas todos os dias à noite, com as cadeiras de meteorologia aeronáutica, conhecimentos técnicos e motores, teoria de voo, navegação aérea e regulamentos de tráfego aéreo. O curso foi sensacional. A troca de experiência com o pessoal mais velho não tem preço. Nosso professor de regulamentos, por exemplo, está na aviação desde 25 anos antes de eu nascer, hoje um grande instrutor de todos os pilotos da Tam. Não tem dinheiro que pague assistir uma aula com alguém com essa bagagem toda. Como ele mesmo dizia, o bate-papo na aula, o que ele chamava muito corretamente de “cultura aeronáutica”, valia mais que a aula em si.

No meio do curso teórico comecei com os voos de fato, obviamente sempre com o instrutor. Antes do primeiro voo, se cria uma expectativa bastante grande, afinal há quantos anos eu sonhava com aquele momento. Mas na verdade, na hora é tanta tanta coisa pra se preocupar, que você acaba não pensando em mais nada. É como quando você aprende a dirigir, que você fica tão preocupado com o carro que esquece do trânsito. Nos meus primeiros voos, eu não arriscava olhar pro lado, porque o avião em si tomava conta de 100% da minha capacidade cerebral. Como a gente fala na computação, “o CPU está colado em 100%”.

A lei brasileira permite que você comece a voar com instrutor antes de prestar a prova teórica (que se chama de banca) na ANAC, desde que tenha o CCF. Porém, sem a banca, você não pode prosseguir com o curso e voar solo. Como eu fiquei quase um mês no exterior, perdi umas três semanas de aula no aeroclube. Baixei a cabeça e estudei muito para prestar a banca. Poucos dias antes do natal, fizemos a prova e passamos de primeira. Das 5 provas, a minha média mais baixa foi 80% e gabaritei navegação. Eu tinha me preparado para uma prova muito mais difícil. 🙂 Nesse instante, adquiri minha licença vitalícia de piloto privado, faltando apenas as habilitações técnicas, essas temporárias e pra cada tipo de avião (mono-motor, multi-motor, jatos…) e/ou tipo de operação (visual ou instrumentos).

Já devo andar agora pela minha décima hora de voo, já bem mais tranquilo que nas primeiras horas. Já não brigo tanto com o avião, ou ele não briga tanto comigo. Já consigo me orientar bem, voltar pro aeroclube, respirar mais, observar a paisagem, etc. Já decolo sozinho e quase pouso, com um auxílio do instrutor no toque final. Enfim, estou procedendo com o treinamento dentro dos parâmetros esperados para um aluno aplicado. Uma coisa que meu instrutor gosta muito de mim é que eu me cobro muito e sou extremamente perfeccionista. Numa atividade onde não há espaço para erros, isso pode fazer toda a diferença.

Talvez dentro de mais dez ou quinze horas, eu esteja apto a fazer o meu primeiro voo solo. O primeiro voo solo é o voo mais importante da vida de qualquer piloto no mundo. É o primeiro voo que o instrutor não está ali pra desfazer a sua cagada, para lhe dizer o que fazer. Nem que ele não faça nada, mas a simples presença do instrutor já dá uma grande tranquilidade. Confesso que já estou bastante apreensivo, muito pela minha forte auto cobrança, mas o que seja, creio que isso deixaria qualquer um bem ansioso.

Relembrando um pouco a minha infância e juventude e escrevendo este texto, eu vejo que como é possível a gente realizar muitos dos nossos sonhos, inclusive aqueles lá de criança. Uma das coisas mais importantes na nossa vida é a perseverança. De alguns anos para cá, eu amadureci uma fé inabalável de que o impossível muitas vezes é algo que plantam na sua cabeça.

Vale a pena correr atrás de um sonho. Pode ser que seja um sonho remoto, pode ser até uma utopia, na verdade. Ou não.

Asas de um sonho” é o nome dado a um museu de aviação criado pela Tam em São Carlos – SP, empresa essa fruto de um grande sonhador, o Comandante Rolim Amaro.

Veja também o post do Alberto sobre o mesmo assunto.

Aviação brasileira – cenas do último capítulo

Um vôo partindo de Guarulhos que era para ser para Dallas, mas parou em Miami. Normalmente um vôo para Miami tem 8 horas e algo. Este durou mais de 13 horas. Assim foram minhas últimas horas enfrentando o sistema aéreo brasileiro.

Estou sentindo na pele toda a merda que esta crise aérea vem causado às pessoas que viajam pelo Brasil (não somente aos brasileiros). Mas, sempre pode ficar pior. Até então, tudo o que se tem sofrido é até o momento de o avião decolar. Horas de espera, longas filas, desinformação, desrespeito, omissão, etc. Quando você decola, enfim, nos livramos de tudo isso. Bom, não exatamente.

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PQP! Quantas vidas mais?

Quantas vidas vão ser perdidas tragicamente até que este país ponha a mão na consciência? Mais um acidente aéreo, desta vez anunciado, esperado, no aeroporto mais movimentado do país, com uma infra-estrutura ridícula, que deveria operar no máximo com teco-tecos.

Há muito tempo aviões estão aquaplanando. O Estado acabou de gastar R$ 19 milhões, 75% provavelmente desviado, para supostamente resolver esse problema. 14 dias mais tarde, na primeira chuva, um avião aquaplana. Por sorte, não era um jato pesado. Um dia mais, o esperado acontece. O vôo da Tam 3054, que saiu de Porto Alegre para Congonhas, operado pelo Airbus A320-233 PR-MBK, 176 pessoas a bordo, não conseguiu frear a tempo. Chovia bastante em São Paulo no momento.

Muito provavelmente ninguém sobreviveu no avião, pelo perfil do acidente. Certamente houveram vítimas em solo, pois havia bastante gente trabalhando na loja da Tam Express e no posto Shell ao lado da loja, onde o avião se chocou, na Av. Washington Luís.

Bastante gente me procurou para saber se eu estava vivo. Sim, estou! Ultimamente eu tenho feito exatamente esse trecho, nesse mesmo avião e nessa mesma companhia pelo menos duas vezes por mês. Há 13 dias, eu estava aí no local do acidente. Agradeço aos que se preocuparam comigo ao saberem do acidente.

Eu sempre tive um pouco de receio desse aeroporto. A pista é extremamente curta (1900 metros) para esse tipo de aeronave. Nas duas cabeceiras (17 e 35) há grandes avenidas. Dá calafrio de olhar o quão perto passam essas avenidas. Inacreditável. Há algumas semanas eu comentei aqui neste blog sobre um pouso apertado que o vôo que eu vinha de Brasília fez nesse aeroporto. A pista estava cheia de água. Isso foi exatamente um dia antes do fechamento para a suposta “obra”.

Me sinto profundamente triste por todas as pessoas que perderam suas vidas, assim como pelo sofrimento de seus entes. Poderia ter sido eu, você, qualquer pessoa naquela aeronave. E me sinto muito indignado por saber que tudo isso está acontecendo, assim como o acidente com a aeronave da Gol, por pura, pura negligência das autoridades.

Ideologicamente, eu sou contra privatizações. Mas diante desta barbárie que está o Estado Brasileiro, é melhor passar o controle das coisas pra iniciativa privada. Custa mais caro, mas pelo menos funciona.