Uma das maiores revoltas de todos os brasileiros é o preço pago pelas coisas no Brasil, comparado ao resto do mundo. Essa discrepância tem ficado muito mais visível nos últimos anos com o fácil acesso a informação via Internet e também pela ascensão social que o Brasil tem vivido.

Comparar preços de coisas entre dois países usando meramente a taxa de câmbio só serve para os propósitos de turismo e comércio internacional, por exemplo brasileiros comprando coisas nos Estados Unidos e vice-versa. Para de fato comparar dois países, o mais correto a fazer é comparar o poder aquisitivo de cada nação. Caro e barato é algo extremamente relativo. Na prática, o que interessa para a grande maioria das pessoas é o quanto se precisa trabalhar para se alcançar algo.

Eu desenvolvi um método que me parece justo para comparar o poder de compra nos dois países. Obviamente, existem diversos outros métodos que podem se ajustar melhor para cada realidade, dependendo que informação se quer extrair. Mas enfim, qualquer método bem pensado é muito melhor que simplesmente comparar o preço em dólares com a taxa de câmbio do dia.

Minha comparação é feita utilizando o percentil 50, ou mediana, de renda de cada país. O percentil 50 basicamente corta a distribuição de renda em duas metades iguais, ou seja, uma metade do país ganha mais que X e outra metade ganha menos que X. Estatisticamente, usar percentis é muito mais relevante que usar médias. Tem bastante literatura por aí explicando o porquê. Não é o propósito deste post ensinar estatística.

O salário mediano nos EUA é US$ 24,62 por hora, enquanto o salário mediano no Brasil é R$ 18,94 por hora, já considerando 13o e férias. É difícil achar informações estatísticas confiáveis sobre isso no Brasil, então esse número pode estar um pouco errado, mas não muito, pelo o que pude pesquisar. Note que em nenhum momento eu vou falar de taxa cambial ou salário mínimo. Câmbio é altamente flutuante e salário mínimo é altamente arbitrário, então não faz sentido fazer comparações usando esses indicadores.

Outro ponto importante é que não estou considerando diferenças regionais. Os dois países sofrem desse efeito fortemente em proporções semelhantes, então não chega a afetar tanto as medianas.

Se você olhar preço de coisas nos EUA, normalmente o preço não inclui imposto de venda. Para efeito de comparação, eu adicionei 9% ao preço de tudo, que é a taxa mais comum aqui na Califórnia.

Acesse a tabela original no Google Docs.

O que interessa mesmo na tabela não é o preço das coisas, mas sim quantas horas um americano e um brasileiro de classe média precisam trabalhar para adquirir o item.

Em geral, o brasileiro precisa trabalhar muito mais para comprar qualquer coisa. Essa diferença varia bastante dependendo do produto, chegando a diferenças extremamente gritantes em alguns casos. Um caso clássico que foi muito explorado na imprensa foi o do Playstation 4. Enquanto um americano trabalha menos de 18 horas, um brasileiro precisa trabalhar mais de 26 dias para adquirir um.

Quando tivemos nosso primeiro filho em 2012, ficamos muito chocados com os preços de acessórios para bebês no Brasil, como carrinhos, brinquedos, etc. O exemplo mais ridículo que eu achei foi com carrinhos pequenos, estilo umbrella. Aqui se acha em qualquer canto por menos de US$ 20, enquanto no Brasil custa R$ 150. Em termos de esforço para adquirir um, o brasileiro vai trabalhar 1118% a mais.

Comida em geral é mais barato no Brasil, mas como o americano ganha mais, acaba sendo mais fácil comprar comida aqui, mas a diferença normalmente não é muito expressiva. Por exemplo, um brasileiro precisa trabalhar 40% a mais que um americano para comprar arroz.

Em eletrônicos a diferença é sempre bem gritante. O iPhone 6, um grande objeto de desejo no Brasil, custa 21 dias de trabalho no Brasil, enquanto custa menos de 4 dias nos EUA. Para comprar uma TV de 40″ simples, 63 horas no Brasil vs. 11 horas nos EUA. E por aí vai…

Talvez nada mais entristeça um brasileiro do que na hora de pagar por um carro novo. Carros que são populares em boa parte do mundo normalmente são objetos de ostentação no Brasil. Um Honda Civic, por exemplo, que é bem popular por aqui, pode ser adquirido com 102 dias de trabalho. O mesmo carro, removendo vários itens de segurança obrigatórios nos EUA, vai demandar 472 dias de trabalho no Brasil.

Comparando o carro novo mais barato que você pode comprar nos dois países, nos EUA você trabalharia 71 dias e no Brasil 158 dias. No EUA, você leva um Nissan Versa pra casa, com 6 airbags, controle de estabilidade, motor 1.6 109 cv e 4 estrelas no crash test obrigatório. No Brasil, você vai ter que se contentar com um Fiat Palio 1.0 75 cv, com 2 airbags, ABS e 3 estrelas no crash test independente, com colisão frontal apenas. Reze para não ser atingido na lateral.

Por que as coisas são tão mais difíceis de adquirir no Brasil? Existem milhares de teorias e é impossível simplificar qualquer uma delas. Em um lado da equação está a renda média/mediana, que tem melhorado bastante nos últimos anos. Não por acaso, se vê muito mais carros nas ruas, mais gente comprando em lojas, mais gente viajando, etc. Isso é ótimo para o país social e economicamente.

Do outro lado, estão os preços altos. Tem alguns fatores particulares do Brasil que empurram o preço de tudo pra cima:

Impostos

Muitos brasileiros desinformados enchem a boca para dizer que o Brasil tem os impostos mais caros do mundo. Isso é mentira, e bem mentira. O Brasil tributa 37% do PIB, enquanto os EUA tributa 32%. Não é uma diferença muito grande. Alguns países na Europa tributam mais de 50% do PIB. A grande diferença no Brasil é onde essa tributação está acontecendo. O Brasil tem um sistema de impostos ridiculamente injusto, que penaliza os mais pobres. O Brasil tributa muito pouco a renda, com teto de 27,5% apenas. Porém, tributa agressivamente o consumo. Na grande maioria dos produtos adquiridos no Brasil, incluindo comida e roupas, pelo menos 1/3 do preço é imposto. Num quilo de açúcar, é 45%, o que é vergonhoso, tratando-se de um produto essencial. Isso penaliza demais quem é pobre, que acaba tendo quase o mesmo impacto tributário de uma pessoa milionária.

Nos EUA, se paga MUITO mais imposto de renda, podendo chegar a mais de 50% para grandes rendas, dependendo do estado. Porém, se tributa muito pouco a circulação de mercadorias. Aqui na Califórnia, com um dos impostos de vendas mais caros do país, em praticamente tudo se paga apenas 8-9% de imposto sobre o preço final. Isso vale pra desde comida, roupas, até automóveis. Eu acho isso muito mais justo, pois gera um impacto tributário bem baixo para pessoas pobres, enquanto dá uma mordida significativa para quem ganha muito bem. Esse modelo usado nos EUA é muito comum em vários países de primeiro mundo.

Outro ponto vergonhoso no Brasil é o país tributar pesado as empresas antes da apuração de resultados. Mesmo que você esteja operando no vermelho, em um mar de dívidas, o governo está sempre do lado mordendo pesado. Se paga muito imposto sobre faturamento bruto, o que proíbe qualquer empresa de operar com margem de lucro baixa.

Margem de lucro

Quase a totalidade das empresas brasileiras opera de margens de lucro super altas. Se você quiser revender um produto com 2-3% de margem, algo super comum nos EUA, provavelmente você vai perder dinheiro, porque os impostos que incidem sobre o faturamento bruto vão corroer o lucro inteiro.

A incerteza de o quanto se vai pagar de impostos também é gigante. Então, por via das dúvidas, melhor botar uma margem bem gorda pra compensar surpresas.

Fora isso, o resto da margem de lucro é regulada simplesmente pela lei da oferta e procura. Enquanto houver gente disposta a pagar R$ 200.000 por uma BMW simples, o que é algo obsceno, certamente vai ter gente de prontidão vendendo por esse preço. É a lei mais básica da economia e isso nunca vai mudar.

Outro ponto forte, que é bem comum em países com classe média em ascensão, é a necessidade de ostentar com luxo. As empresas adoram e exploram isso do jeito que podem. Ostentação existe no mundo todo, mas é muito mais notável em países mais pobres. Aqui nos EUA, faz muitas décadas que o percentil 50 tem um bom poder aquisitivo, então não tem muito essa de pagar qualquer preço por qualquer coisa. A concorrência é brutal e o mercado não perdoa. Quem opera com margens muito altas acaba caindo fora.

Um bom exemplo: BMW aqui é sim considerado carro de luxo e a classe média não aceita ter que trabalhar 208 dias para comprar um. E note que o esforço que um americano médio precisa pra levar uma BMW 328i pra casa é exatamente o mesmo esforço que um brasileiro médio precisa pra comprar um Gol 1000, e grande parte da classe média brasileira está disposta a se endividar com juros altíssimos para ter um, se não algo bem mais caro.

Esse comportamento coletivo faz o preço de tudo ir pro inferno. Na minha opinião leiga, eu diria que esse é o maior fator para o preço das coisas no Brasil ser tão alto. As pessoas simplesmente estão dispostas a pagar.

Logística

Eu falei bastante sobre infraestrutura no primeiro post da série, então não vou repetir nada aqui. Resumindo, a infraestrutura existente para mover moléculas de A para B no Brasil é muito ruim, elevando o custo de tudo.

Um dado muito chocante que muita gente não sabe é que 21% do PIB brasileiro é torrado em logística. Sim, 1/5 de tudo o que o país produz é perdido simplesmente movimentando coisas de um lado para o outro. O mais comum entre países desenvolvidos é 6-8%. Você querer movimentar a produção de um país de caminhão não parece ser algo muito inteligente. Some isso à fatia que o governo leva, aí se vão 58% do PIB brasileiro.

Eu tinha alguns clientes grandes de logística no Brasil, e eu nunca esqueci algo que me falaram uma vez:

É mais caro transportar um container de Campinas até o Porto de Santos (de caminhão), do que do Porto de Santos até a China (de navio).

Óbvio que a eficiência de um grande navio é incomparável com qualquer outro meio de transporte, mas estando Campinas a apenas 170 km de Santos, isso é um dado chocante ainda assim. Eu não tenho números para confirmar se isso ainda é verdade hoje.


Do ponto de vista de consumo, dá pra notar claramente, com números, que a vida nos EUA é infinitamente melhor que no Brasil. Quando mudamos pra cá, essa foi uma das coisas mais chocantes pra nós. Nosso poder aquisitivo se multiplicou várias vezes do dia pra noite.

Existe um lado bem perigoso nisso, que é o consumo compulsório. Isso é uma doença bem comum nos EUA. Mesmo que o país tendo uma renda mediana boa e um poder aquisitivo enorme, grande parte das famílias de classe média está endividada no cartão de crédito.

No dia a dia, se nota muito esse problema. É bastante comum, por exemplo, de as famílias deixarem seus carros na rua. Não porque eles têm preguiça de guardá-los, mas sim porque os carros não cabem na garagem, de tanta tralha acumulada ao longo do tempo.

O mercado, obviamente, explora muito o problema, do mesmo jeito que explora o problema da ostentação no Brasil. Você vai comprar um cortador de grama e você vai achar vários tipos, pra grama alta, baixa, seca, molhada, invente a sua estória aqui. E muita gente cai na armadilha e compra todos. A quantidade de porcaria que você não precisa é impressionante, e os marqueteiros se esforçam para lhe convencer que você precisa de tudo. Muita gente cede e isso movimenta a roda da economia.

Eu odeio, de morte, juntar porcaria. Mesmo tendo condições de poder adquirir praticamente qualquer coisa pra casa, nós nos disciplinamos bastante para comprar só o que se precisa e vai ser usado. Isso mantém a casa num estado administrável e temos bastante espaço. E os carros estão sempre na garagem.

Nós temos uma qualidade de vida que dificilmente teríamos no Brasil. Eu não tenho nem ideia do quanto eu precisaria ganhar no Brasil para manter o mesmo estilo de vida. Certamente seria impossível com a minha profissão.

O fato de que muita coisa é mais barata nos EUA não significa necessariamente que o custo de vida é mais baixo. As despesas com moradia, seguro de saúde e educação superior aqui geralmente consomem boa parte da renda das famílias. Eu falei bastante sobre o problema da saúde e educação privadas por aqui no primeiro post. Dependendo de onde se mora, a despesa com moradia pode passar da metade do salário líquido (depois dos impostos), sobrando pouca coisa para o resto, o que acaba comprometendo o poder de compra e investimento.

Uma coisa que é normalmente bem mais caro aqui que no Brasil é mão de obra, seja ela qual for. Limpeza, manutenção, mecânica, elétrica, etc, tudo é muito caro. Um luxo que tínhamos no Brasil e não temos aqui é faxineira todas as semanas. No Brasil não era necessariamente barato, mas era algo que cabia na boa no meu orçamento. Aqui é complicado, pois custaria uns US$ 200 pelo menos para limpar uma casa média. Uma vez nos trancamos para fora de casa, chamamos um chaveiro e foi US$ 125 para abrir a casa em 2 minutos. Já tivemos a saída de esgoto entupida e foi US$ 70 pra resolver em 2 minutos. Cortar uma grama por menos de US$ 50, nem pensar. Prender uma TV na parede foi US$ 129, mas eu suguei todo o conhecimento e nunca mais vou pagar por isso. 🙂

Mão de obra cara não é muito agradável pra quem paga, mas é justo pra quem recebe. Afinal, quem vive de serviços também tem o direito de ter uma vida digna. E essa é uma das razões de o país ter uma classe média super forte. Se você tem o mínimo de qualificação pra fazer qualquer coisa mais inteligente que entregar pizza, é bem provável que você que vai chegar na volta do percentil 50 e ganhar uns US$ 20-25 por hora. Com bastante qualificação, dá pra chegar na volta do percentil 80 bem fácil, onde a faixa de salário já dobra.

Isso tem mudado bastante no Brasil nos últimos anos. Eu na verdade, fico muito feliz por isso. Me entristece ver um monte de gente reclamando que não dá mais para ter empregada, que tem faxineira andando de carro, pedreiro viajando de avião, etc. Se você não está disposto a fazer o serviço, você tem que estar disposto a pagar por isso o preço que o livre mercado define.