Chengdu, a cidade do Panda

Cobrimos os 1560 km de distância em 2h34min de voo, pousando em Chengdu pouco antes das 20h. Uma coisa curiosa na China é que todo o país tem o mesmo fuso horário UTC+8. Geograficamente é um absurdo, mas politicamente facilita a vida. Chengdu está numa longitude 104 graus leste, logo deveria ter um fuso horário UTC+7. No extremo oeste do país o fuso deveria ser UTC+5. Logo, o pôr do sol nessas regiões pode passar das 22h no verão.

Chengdu fica bem no meio do país, embora eles considerem uma cidade do oeste. É uma das cidades mais prósperas do oeste, pois da mesma forma que Shenzhen, Chengdu está se tornando um grande polo industrial através de fortes incentivos do governo. Uma ótima estratégia para desenvolver o oeste pobre do país. A cidade está hoje com 11 milhões de habitantes, pelos números oficiais.

Imaginávamos não ver muito progresso em Chengdu como vimos em Shenzhen e Beijing, mas mais uma vez nos surpreendemos. Dos locais onde estivemos, Chengdu é de longe o local que está mais construindo. É assustador a quantidade de construções. Acho que em nenhum momento não se encontrava uma grua por perto. Bastava olhar para um lado ou outro, que rapidamente se via um prédio subindo. E muitos, muitos prédios em todo lado.

Isso é algo interessante na China. O país se esforça demais para otimizar a ocupação de espaço, pois está havendo um gigante êxodo rural nos últimos anos. Otimizar espaço em áreas urbanas significa construir para cima. Não tem mágica. E é o que se vê por todo lado. Condomínios com várias dezenas de torres iguais e cada torre com muitos apartamentos pequenos. Acho que eu não vi nenhum condomínio com menos de 10 torres iguais. Cada torre sempre maior que 20-30 andares. Certamente não é o melhor modelo de cidade para o conforto de seus habitantes, mas em um país com 1,4 bilhão deles, as regras são bem diferentes.

Ficamos apenas um dia em Chengdu, pois tínhamos apenas um compromisso na agenda, de visitar a sede mundial da Huawei Symantec, que fica numa zona industrial com uma série de outras mega empresas, muitas delas americanas, como IBM, Microsoft, Cisco, etc. A Dell deve abrir uma operação grande em Chengdu em breve.

A maior atração turística de Chengdu é o Panda Park, que reúne cerca de uma centena de ursos pandas. O panda é nativo dessa região, e é uma espécie ameaçada hoje em dia. Acredita-se que não existe mais de 3000 deles no mundo. O parque é muito interessante, sendo praticamente um zoológico de uma só espécie. Embora ele seja manso, não é permitido se aproximar muito, pois em algumas circunstâncias, eles podem se sentir ameaçados e atacar as pessoas. O bicho é tão preguiçoso que o parque se esforça ao máximo para procriá-los, mas é difícil, pois eles só querem saber de comer bambu e dormir. No vídeo a seguir dá para ter uma boa ideia disso:

Veja também o álbum de fotos do parque.

Do parque, fomos direto para o aeroporto, que fica do outro lado da cidade, ao sul. Como toda boa cidade, Chengdu possui uma estrutura muito boa de anéis rodoviários. Circulando um desses anéis, tudo o que se vê são construções, não somente prédios, mas também de infra-estrutura da cidade.

Decolamos de Chengdu às 20h24 direto para Shenzhen. Embora nosso destino essa noite era Hong Kong, voar para Shenzhen é muito mais barato, pois é um voo doméstico. Pousamos em Shenzhen, 1315 km a sudeste, exatamente 2 horas mais tarde.

No aeroporto, nos despedimos de nossos colegas chineses, Ruby, Bill e Cherry. Por mais estranho que possa parecer, os chineses precisam de visto para entrar em Hong Kong, e nossos amigos estavam com os seus visto expirados. Fica aqui meu imenso agradecimento aos três, que fizeram a nossa viagem ser uma experiência muito mais formidável do que seria se fôssemos apenas turistas passeando, sem compartilhar nada da cultura deles.

Haviam algumas vans nos esperando no aeroporto, que nos levaram até Hong Kong. Chegando na fronteira, a fila de carros para emigrar da China e imigrar em Hong Kong estava imensa. Os motoristas nos sugeriram fazer o processo a pé, que é mais rápido, e assim o fizemos. Como os motoristas são cidadãos de Hong Kong, eles passam rápido. Quando terminamos o processo todo, eles já estavam nos esperando do lado de Hong Kong.

Mais uma meia hora dirigindo e chegamos no nosso hotel, o Regal Kowloon Hotel, no distrito de Tsimshatsui, Kowloon.

Hong Kong merece seu próprio post, nos próximos dias…

Beijing – Cidade Proibida e mais

Na quinta-feira, dia 7, nossa primeira atividade foi visitar a Cidade Proibida, que fica encravada no centrão de Beijing, muito perto de nosso hotel.

A Cidade Proibida é um complexo imenso, ocupando uma área de 72 hectares. O complexo possui 980 prédios e começou a ser construído em 1406, para servir aos imperadores e seus achegados. Hoje em dia é usado como atração turística. Tudo é muito bem conservado. O local assusta pela sua imponência, riqueza de detalhes e beleza. É da Cidade Proibida que vem essa clássica arquitetura chinesa, facilmente reconhecida pelo modelo do telhado das construções.

O lugar é tão grande que é fácil perder horas aí dentro. Chega um momento que tudo parece igual, pois as construções são de certa forma semelhantes. Ficamos um pouco mais de duas horas aí e ainda faltou bastante coisa para ver.

Não vou falar sobre a história do local pois existe muita literatura sobre isso na Internet.

Veja o álbum de fotos da Cidade Proibida. Várias fotos interessantes.

Uma das coisas mais notáveis na China são os vendedores de rua. Eles atacam querendo vender de tudo, especialmente falsificações de tudo, e não sossegam enquanto não há negócio. A ordem geral no país é barganhar, e barganhar muito. Um diálogo comum seria:

  • Ambulante: Ei ei, olha isto, baratinho, 500, 500…
  • Você: não, não, obrigado…
  • A: compra, compra, quanto você quer pagar?
  • V: ok, pago 20…
  • A: 100, 100…
  • V: não, 25…
  • A: ok, 50, negócio fechado…
  • V: ok, 50…

Na cultura brasileira a gente até barganha, mas qualquer 10-15% já é visto como um bom desconto. Lá o desconto normal nesse tipo de situação pode chegar a 80-90%, o que é um absurdo. No início você se sente um explorador sem escrúpulos, mas depois, pensando bem, você vê que eles são tão exploradores quanto. Se eles te oferecem algo por 500 e fecham por 50, certamente o custo foi 10. Tirando a tirania da situação, você se diverte muito comprando, porque toda a negociação é levada com uma boa dose de humor.

Na foto ao lado dá para se ter uma ideia das abordagens. A senhora queria me vender uma bolsa por RMB 120. Comprei 5 bolsas por RMB 50. Depois ouvi o pessoal comentando que tinha comprado 5 por RMB 35. Jogo duro. O mais engraçado foi quando ela descobriu que o grupo era brasileiro, começou a falar italiano enlouquecida, “cinque per cinquanta, cinque per cinquanta, cinque per cinquanta”. Maluca. 🙂

Nesse dia, fomos almoçar no Quanjude Roast Duck Restaurant, um dos restaurantes mais famosos e tradicionais da capital. Fomos comer o prato mais tradicional de Beijing, o pato laqueado (roast duck), que consiste em se comer apenas a pele do pato, que é extremamente nutritiva. O resto do pato não é aproveitado, pois são patos muito gordos.

O restaurante é deslumbrante! Você entra e fica abobado olhando para todos os lados. São vários andares, várias salas reservadas, salões enormes. A vestimenta dos atendentes é muito bonita. O negócio é tão imponente que cada pato criado por eles é catalogado. Eles cortam o pato na sua frente e lhe dão o certificado com o número de série do pato que você está comendo. O restaurante está aí desde 1864, servindo em torno de 2 milhões de patos por ano. É destino certo de vários chefes de estado em visitas oficiais.

Veja as fotos que tomei no restaurante. Sim, a comida estava maravilhosa, para variar.

Falando em salas reservadas, isso é algo que muito me chamou a atenção na China. Praticamente todos os restaurantes bons que fomos tinham salas reservadas para grupos. Geralmente a sala consiste em uma ou duas mesas redondas tradicionais, alguns sofás e TV com karaokê (claro). Em uma delas tinha até um tabuleiro de mahjong, jogo tradicionalíssimo na China (foto ao lado). Os atendentes servem a sala normalmente como se o grupo estivesse no salão principal. Muito interessante para grupos ou reuniões comerciais onde se precisa de alguma privacidade.

Depois do almoço de pato, fomos visitar outro lugar muito famoso mundialmente, a Praça da Paz Celestial (Tiananmen Square). É a maior praça do mundo, com incríveis 44 hectares. Na foto ao lado, atrás de mim está a foto de Mao Tsé-Tung, na parede que é a face sul da Cidade Proibida. A praça foi palco no passado de várias manifestações, a mais notável sendo os protestos de 1989, onde o exército abriu fogo contra os manifestantes, matando milhares deles. Hoje a praça é totalmente cercada e incrivelmente vigiada por várias câmeras de alta definição. O acesso é controlado através de detectores de metais.

Ficamos poucos tempo, o suficiente para tomar algumas fotos da praça.

No caminho para o aeroporto, paramos rapidamente para conhecer o magnífico Parque Olímpico de Beijing, onde foi sediado os jogos olímpicos de 2008. O lugar é muito legal e muito grande. O parque inteiro tem 8 km de extensão, tudo muito bem feito. A infra-estrutura do local foi tão bem feita que o parque é atendido por duas linhas de metrô.

Vimos pouco do local, mas já deu para ver claramente que os chineses receberam as olimpíadas em grande estilo. Veja o álbum de fotos do parque olímpico.

No caminho para o aeroporto, que fica a 20 km a nordeste do parque olímpico, vimos outra coisa muito importante para uma cidade desenvolvida: 20 km de linha expressa do aeroporto (Airport Expressway), toda elevada, 3 pistas para cada lado, ligando o terceiro anel rodoviário ao aeroporto diretamente, sem influência do tráfego da cidade. Não levamos nem meia hora para percorrer o caminho, isso tudo às 15h30 de uma quinta-feira normal.

E lá vamos nós receber uma copa do mundo com o super Aeroporto Internacional André Franco Montoro (ou Cumbica, ou Guarulhos) e uma excelente via expressa, também conhecida como a Marginal do Tietê. Em 8 horas, você voa de Miami até o aeroporto. Mais umas 3-4 horas, você chega no centro da cidade. Razoável… Para que metrô no aeroporto? O bonito é apreciar a paisagem.

Voamos de Hainan Airlines para Chengdu, na província de Sichuan. Na saída, fomos presenteados com uma belíssima vista da Grande Muralha se perdendo no horizonte. Uma pena que eu estava com a câmera guardada. De qualquer forma, a poluição de Beijing não permitiria uma foto bonita.

Falando em poluição, fomos muito alertados que a poluição em Beijing era insuportável e tal. Se nota muita poluição de fato, e é facilmente perceptível também nas fotos externas, mas em nenhum momento me atacou a garganta ou olhos, como eu poderia esperar. Voando se vê bem a grossa camada cinza que paira sobre a cidade. Dizem que melhorou muito depois das olimpíadas.

No próximo post, Chengdu.

Beijing – A Grande Muralha

A visita a Beijing foi muito mais por motivos turísticos do que de trabalho, embora tínhamos uma atividade profissional programada para a cidade. Como nosso roteiro na China foi elaborado por uma empresa chinesa, eles fizeram questão que o grupo conhecesse a capital. Fizeram certo, pois todos gostaram muito.

No dia 6 de abril, nossa primeira atividade pela manhã foi visitar a Grande Muralha. Seguramente esse era o momento turístico mais esperado da viagem, pois a muralha é o principal cartão postal do país. O trecho da muralha mais próximo de Beijing fica a uns 60 km à noroeste do centro da cidade. Naturalmente, o que podemos ver da muralha é completamente insignificante comparado ao tamanho que de fato ela é. Mais de 6000 km foram construídos e boa parte ainda está preservada ao longo do país.

Como a muralha era um sistema de defesa, ela foi construída sempre buscando o topo das montanhas, ao invés de circundando elas, como se faria em uma construção de estradas, por exemplo. O trecho que visitamos em Beijing é uma dessas subidas. A muralha na verdade é composta por dois muros com 7-9 metros de altura e uma escadaria no meio com uns 5 metros de largura. A cada pouco há guaritas, que eram usadas como postos de controle.

Eu não sei exatamente quantos metros andamos nem quantos degraus subimos, mas foi muito! O que eu sei é que o ponto mais baixo, onde começamos a subida, estava a uns 100 metros de altitude. A última guarita que eu cheguei estava a 510 metros. Ainda dava para subir e ver mais duas guaritas, mas meus joelhos não aguentavam mais. Na verdade, a coisa nunca termina, pois você atravessaria o país buscando a próxima guarita. 🙂

Independente do esforço físico, vale muito a pena visitar. Não só por se tratar de um dos maiores cartões postais do mundo, mas principalmente para estar diante da grandiosidade que foi construir mais de 6000 km de uma linha de defesa, e tudo isso há mais de 2500 anos. É impressionante!

E para compensar o esforço, você leva (por apenas RMB 40,00) um certificado de que chegou lá:

Outra coisa que eu acho muito interessante de visitar esse lugares muito famosos é que você encontra gente de tudo que é canto do mundo. Outros lugares onde observei muito isso foi em Machu Picchu no Peru, Times Square em New York, Cristo Redentor e Pão de Açúcar no Rio de Janeiro. A diferença na muralha é que está todo mundo tão acabado e parando para descansar, que dá para conversar com muita gente. Uma senhora de 65 anos, muito saudável e simpática, nos ouviu falando português e nos abordou maravilhada. Ela era de Portugal e estava viajando sozinha pela Ásia havia mais de 2 meses. Ainda ia para as Filipinas e Indonésia, para depois voltar para casa. Achei muito genial. Quero chegar aos 65 com essa disposição. 🙂

Veja o álbum de fotos que tomei na muralha.

No próximo post, Cidade Proibida, Praça da Paz Celestial e Parque Olímpico.

Beijing 1

Beijing, ou Pequim como se diz normalmente pelo Brasil, nos surpreendeu. Vimos todo aquele progresso em Shenzhen e imaginávamos que aquilo era apenas devido a ser uma cidade nova. Comentávamos entre nós que chegando em Beijing que iríamos de fato conhecer a China comunista / socialista, através de uma típica cidade de terceiro mundo, com sérias deficiências de infra-estrutura, muita pobreza aparente, desorganização, congestionamentos imensos, etc. Estávamos absolutamente enganados. Como comentei no post anterior, o aeroporto é colossal, e isso já nos dava uma ideia que não estávamos em qualquer cidade.

Chegamos em Beijing no início da noite e já estava bem frio, pois mesmo na primavera, qualquer cidade 40 graus longe do equador normalmente é fria, mesmo estando Beijing ao nível do mar. Hong Kong e Shenzhen ficam próximas ao trópico de câncer, então é outro clima, muito mais agradável. Pela primeira vez na viagem, fui obrigado a recorrer a um agasalho.

Logo no desembarque, nossa guia, que se chamava Meg, nos esperava. De primeira já deu para notar que ela era bem hiperativa, falante e muito boa gente. Não demorou para os brasileiros a apelidarem de iPod. Ela nos organizou em duas vans e nos dirigimos ao hotel, no centrão de Beijing, 32 km à sudoeste do aeroporto. Eu fui na van onde estava a guia, e ela já nos deu uma aula de Beijing, onde fica o que na cidade, falou sobre alguns bairros, origens, etc. A cidade é tão antiga que ninguém sabe ao certo a sua idade. De acordo com a guia, a cidade tem 3000 anos e é a capital do país há mais de 600 anos continuamente, pois já tinha sido capital antes, deixou de ser, voltou a ser e assim por diante.

A guia comentou que iríamos pegar um congestionamento no caminho para o centro, pois era a hora do rush. Beijing tem 22 milhões de habitantes (oficialmente), ligeiramente maior que São Paulo, com 19 milhões (toda a metrópole). Logo fizemos a comparação e já vimos que iríamos ficar horas parados no congestionamento para percorrer 32 km. Resultou que nossa velocidade nunca baixava de 40 km/h nos piores trechos, e eles lá estavam achando horrível. Eu imaginei que o congestionamento do qual ela falava tinha se dissipado milagrosamente, mas não, ela confirmou que aquela “lentidão” era devido à hora do rush mesmo, que todos os dias era assim, muito complicado…

Aí que começamos a perceber como as coisas são por lá. A infra-estrutura viária da cidade é impressionante. Todas as vias que andamos tinham pelo menos 3-4 pistas para cada lado, sempre com pavimento impecável. Muitas passagens de nível. Raramente se vê um semáforo entre duas grandes avenidas. É bem comum grandes cidades, especialmente em países de primeiro mundo, possuírem um anel viário que circula a cidade, para aliviar o trânsito na parte interna da cidade. Beijing talvez seja o melhor exemplo mundial disso, pois possui cinco anéis viários circulando toda a cidade. São Paulo está há mais de uma década em passo de tartaruga tentando construir seu rodoanel, que deveria se chamar rodo-meia-lua, pois está muito longe de dar a volta ainda, e o governo admite que não existe nem previsão para isso acontecer, se é que vai um dia.

E isso foi o que vimos por cima. Por baixo está o mais impressionante ainda. Beijing não tinha metrô até 1971. Em 2000 eram apenas duas linhas. Em 2001 a cidade foi confirmada para receber as olimpíadas de 2008. O resultado hoje: 14 linhas e 336 km de extensão. Em 2015 serão 19 linhas entregues, totalizando 561 km no sistema, se tornando o maior sistema de metrô do mundo. Metrô é algo fundamental para uma cidade grande se mexer, e nesse aspecto os chineses estão no caminho. Ninguém mais do que eles sabe o que é ter MUITA gente precisando ir e vir todos os dias. Os maiores metrôs pelo mundo:

  • Shanghai, 425 km, 237 estações
  • Londres, 402 km, 270 estações
  • New York City, 337 km, 423 estações
  • Beijing, 336 km, 172 estações
  • São Paulo, 71 km, 61 estações
  • Rio de Janeiro, 47 km, 35 estações

Quase igual:

Sem comentários…

O mundo todo sabe, e eu nem preciso dizer aqui, que a China tem sérios, e muito sérios, problemas políticos por resolver, mas uma coisa que se nota claramente no país é que, independente de todo autoritarismo que existe, o país está se desenvolvendo numa velocidade furiosa, e em um padrão de qualidade de botar inveja em muito país super-desenvolvido. Normalmente o que se espera de qualquer regime autoritário é um país estagnado, caindo no abismo. Se você acha que a China é mais um desses países, vá lá e veja com seus próprios olhos.

A seguir, minha visita à Grande Muralha, Cidade Proibida, o famoso pato laqueado de Beijing, Praça da Paz Celestial, Parque Olímpico, etc.

Como gosto de escrever bastante, vou escrevendo “a prestação” para não ficar uma leitura muito cansativa.

Shenzhen

O que há apenas 30 anos era uma pacata vila de pescadores, hoje se tornou em uma grande cidade com 9 milhões de habitantes (número oficial), ocupando uma vaga entre as 10 cidades mais ricas e prósperas da China (PIB per capita). Tudo isso se deve a Shenzhen ser a primeira cidade a ser considerada uma zona econômica especial, algo similar ao Polo Industrial de Manaus, com fortes incentivos fiscais, maior liberdade para investimentos estrangeiros, entre outras regalias. Isso atraiu grandes empresas, especialmente da área de alta tecnologia, para a cidade, inclusive a Huawei Technologies, que nos trouxe a Shenzhen. O fato de a cidade ser vizinha de Hong Kong, que ostenta uma infra-estrutura portuária e financeira invejável a nível mundial, ajudou muito o seu crescimento. Shenzhen é considerada o Vale do Silício da China.

O nosso primeiro contato com a China continental foi ao entrar em Shenzhen, deixando Hong Kong. Imaginávamos ver uma cidade grande de um país em desenvolvimento, com fortes traços socialistas, etc. Mas não. O que se vê em Shenzhen é puro progresso. Belas avenidas interligando toda a cidade, muitos prédios comerciais e residenciais. A cidade tem apenas 30 anos e o sistema de metrô é maior que o de São Paulo (não precisa muito, também…), com 4 linhas em operação e várias outras em construção.

Nos hospedamos no hotel Grand Mercure Oriental Ginza, muito bem localizado, em frente a uma estação de metrô. Chegamos no hotel era umas 14h, mas o nosso relógio biológico marcava 3h da madrugada, então muito queríamos dormir. Tínhamos que nos aguentar acordados pelo menos até umas 22h, para forçar a adaptação ao fuso horário. Um dos colegas que estava no grupo já havia estado em Shenzhen antes e sabia como andar pela cidade de metrô, então resolvemos pegar o metrô e ir até Huaqiangbei, que é uma popular zona de comércio de eletrônicos na cidade.

Para quem gosta de eletrônicos, especialmente componentes eletrônicos, Huaqiangbei é o paraíso. Tem um shopping aí imenso com centenas de lojas de componentes. Obviamente, como em qualquer lugar na China, há muita coisa falsificada. Vou falar mais sobre isso no post de Beijing.

Resolvemos jantar por aí mesmo. Uma parte do pessoal queria comer junk food ocidental, mas a outra parte, da qual eu fazia parte, queria comer comida local, afinal estávamos na China e deveríamos aproveitar ao máximo a culinária local. Nós ganhamos. O problema é que ainda não tínhamos nenhum chinês no grupo, ninguém falava mandarim nem cantonês e não é de se esperar que alguém fale inglês decentemente em um restaurante pequeno. Arriscamos assim mesmo. Afinal, tudo faz parte da aventura.

Fomos num restaurante de sopas que parecia bem apetitoso. O problema foi escolher a comida no cardápio, pois o restaurante não tinha nenhuma versão do mesmo em outro idioma que não o local. A sorte é que boa parte do cardápio tinha fotos bem bonitas, e o principal: tinha um ícone de uma pimenta, numa escala de 1 a 3, ao lado dos pratos apimentados. Pimenta na China é coisa muito séria e eu não estava muito disposto a experimentar. Escolhi o prato abaixo pela foto e pelo fato de não ter nenhum ícone de pimenta. Acertei, pois estava maravilhoso.

O pessoal mais macho que resolveu experimentar as famosas pimentas chinesas quase teve um troço comendo. Eu provei um arroz que estava na escala 1 de pimenta e minha boca quase pegou fogo. 🙂

Na saída, fomos tomar um típico café americano no Starbucks. Confesso que sou muito viciado em Starbucks, e bastou ver um lá para me atirar. O café deu um gás extra para sobreviver acordado até chegar no hotel.

Chegamos no hotel pouco depois das 21h. Fui para o meu quarto e capotei imediatamente até às 6h30 do próximo dia, 4 de abril. Nesse dia começou de fato a nossa atividade oficial. Todos acordamos cedo para o café, pois às 8h30 as vans estariam nos esperando para nos levar até a sede mundial da Huawei, onde passamos o dia.

Chegamos na Huawei cedo, onde visitamos uma área de exposição com toda a linha de produtos, que é imensa, e fortemente orientada à comunicação de dados. Tivemos uma reunião de boas-vindas com parte da diretoria, visitamos o data center principal, que é fantástico. Outro lugar genial que visitamos foi o centro automatizado de logística da empresa. É um depósito imenso onde ficam todos os componentes comprados para a produção dos equipamentos. Todo a armazenamento de produtos é automatizado, sem nenhum contato humano. Se você precisar de qualquer componente, basta pesquisar no sistema, e se houver estoque, os robôs vão se encarregar de trazer o devido produto até o local de retirada.

Logo após fomos almoçar com parte do grupo local, onde tivemos de fato o primeiro contato com a tradicional culinária chinesa. O típico na China é comer em uma grande mesa redonda com um tampo giratório no centro (foto ao lado), onde ficam os pratos. Normalmente se pede vários pratos distintos e todo mundo come de tudo, o que eu acho sensacional, pois ninguém se dá mal por ter pedido algo errado. Ninguém enche o prato. O negócio é ir “picando” mesmo. Toda a comida estava simplesmente maravilhosa e muito saudável.

Voltamos à tarde para a Huawei, onde assistimos a algumas apresentações de produtos. À noite jantamos no mesmo estilo do almoço, mas a comida estava ainda melhor. Aproveitamos a janta para comemorar o aniversário do nosso colega Marcelo, da Huawei Symantec Brasil, com direito a parabéns em Mandarim e tudo. Veja as fotos dessa janta no meu Gallery.

Depois da janta, todos já meio adaptados ao fuso horário, fomos a um bar que um dos colegas já havia estado antes, o VBar, que é muito bacana. Não esperava ver tanta música pop/rock ocidental na China, mas a galera parece que gosta. Todo mundo cantando com a banda coisas como Lady Gaga, Black Eyed Peas, Bon Jovi, etc. Abaixo dá para ter uma ideia:

Depois falamos um pouco com o pessoal da banda. A banda se chama Develop e é das Filipinas. Tocam toda segunda-feira no VBar. A banda oficial da casa, que toca no resto dos dias, é escocesa. Conhecemos também o gerente geral da casa, que é um holandês muito gente boa.

Na terça-feira fomos visitar o centro de monitoramento do centro de exposições de Shenzhen, implementado com soluções Huawei. Bem interessante, com mais de 100 câmeras controladas de forma centralizada, todas elas com zoom óptico de 20x e movimento em 360 graus.

Depois de mais um almoço tradicional muito bom, fomos para o aeroporto internacional de Shenzhen (ZGSZ, SZX), de onde voamos até a capital federal Beijing. Como tudo em Shenzhen, o aeroporto é muito moderno e muito bem estruturado. Por enquanto apenas uma pista está em operação, mas uma segunda já está sendo construída e deve entrar em operação em 2012.

Voos entre Hong Kong e China são considerados voos internacionais, e por isso são normalmente bem mais caros que voos domésticos. Em função disso, muita gente voa de/para o aeroporto de Shenzhen, de onde pode-se ir facilmente para Hong Kong, inclusive de ferry boat, que é mais rápido que ir por estrada.

Voamos de China Southern para Beijing, em um Airbus A330-300 enorme. Decolamos 15h39 de Shenzhen e pousamos no Beijing Capital International Airport (ZBAA, PEK) 2h46min mais tarde.

Pense em um aeroporto grande. Sim, este é MUITO grande. O Beijing Capital International Airport é o segundo aeroporto mais movimentado do mundo. Possui três enormes pistas, operando todas simultaneamente. Possui 3 excelentes terminais, sendo o terminal 3 o segundo maior edifício do mundo em área, se estendendo por quase 3 km entre as pistas 18L/36R e a 01/19. Como todo aeroporto decente no universo, está interligado com a cidade através de uma linha de trem, que é ligada ao excelente sistema de metrô de Beijing, com seus 336 km de extensão e 14 linhas. Além disso, há uma estrada expressa (Airport Expressway) ligando o sistema de rodo-anéis da cidade.

Mais sobre Beijing no próximo post.

Nota mental: me assusta de ver que cada grande cidade que eu visito no mundo possui uma infra-estrutura brutalmente maior que qualquer cidade brasileira. 🙁